Coração fora de ritmo: quando a arritmia é sinal de alerta
As arritmias cardíacas são alterações no ritmo normal do coração, que podem fazê-lo bater mais rápido (taquiarritmias), mais devagar (bradiarritmias) ou de forma irregular. Para entender melhor, é importante saber que o coração possui um “sistema elétrico” próprio, responsável por coordenar cada batimento. Quando esse sistema sofre alguma falha, surgem as arritmias.
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HSRC realiza 1º transplante de medula óssea alogênico do ES Com coleta em centro cirúrgicoSegundo Fabrício Vassalo, arritmologista e coordenador do Serviço de Arritmias do Hospital Santa Rita, as taquiarritmias ocorrem quando o coração bate mais rápido do que o normal, geralmente acima de 100 batimentos por minuto. Um exemplo comum é a Taquicardia Sinusal, que pode ser uma resposta normal do organismo a situações como exercício físico, ansiedade ou febre.
Coração fora de ritmo: quando a arritmia é sinal de alerta
“Já a Fibrilação Atrial é uma arritmia muito frequente, especialmente em pessoas mais velhas. Nela, os átrios (as câmaras superiores do coração) passam a se contrair de forma desorganizada, o que pode causar palpitações, cansaço e aumentar o risco de formação de coágulos e acidente vascular cerebral”, explica. Outro tipo importante é o Flutter Atrial, semelhante à fibrilação, mas com um padrão mais organizado e geralmente mais rápido.
“Temos ainda as taquicardias que se originam nos ventrículos, como a Taquicardia Ventricular, que pode ser potencialmente grave, pois compromete a capacidade do coração de bombear sangue de forma eficaz, podendo evoluir para a Fibrilação Ventricular, uma condição crítica que leva à parada cardíaca se não tratada imediatamente”, alerta o especialista.

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As bradiarritmias, por outro lado, ocorrem quando o coração bate mais devagar do que o normal, geralmente abaixo de 50 batimentos por minuto. “Em algumas pessoas, como atletas, isso pode ser normal. No entanto, quando há sintomas como tontura, desmaios ou cansaço, pode indicar problemas no sistema elétrico. Um exemplo é a Bradicardia Sinusal, em que o marca-passo natural do coração funciona mais lentamente do que deveria. Outro caso são os bloqueios de condução, como o Bloqueio Atrioventricular, no qual o sinal elétrico tem dificuldade ou é interrompido ao passar dos átrios para os ventrículos. Dependendo do grau, pode ser necessário implantar um marca-passo”, ressalta Fabrício Vassalo.
Coração fora de ritmo: quando a arritmia é sinal de alerta
Por fim, existem as arritmias que se caracterizam pela irregularidade dos batimentos, podendo ocorrer isoladamente ou associadas aos grupos anteriores. Um exemplo comum são as chamadas “extrassístoles”, que podem ser supraventriculares ou ventriculares. Elas são batimentos “extras” que surgem fora do ritmo normal e são frequentemente percebidas como “falhas” ou “saltos” no coração. Na maioria das vezes, são benignas, mas, quando muito frequentes ou associadas a sintomas, devem ser investigadas.
“As arritmias variam desde condições benignas até situações graves que colocam a vida em risco. Por isso, qualquer sintoma como palpitações persistentes, tontura, falta de ar ou desmaio deve ser avaliado por um médico, idealmente um cardiologista especializado em arritmias, para diagnóstico adequado e definição do tratamento mais seguro”, diz o arritmologista do Hospital Santa Rita.
Coração fora de ritmo: quando a arritmia é sinal de alerta
As causas da arritmia cardíaca são multifatoriais e refletem, em grande parte, o perfil epidemiológico das doenças cardiovasculares modernas. Entre os principais fatores, segundo o cardiologista Alex Gomes Rodrigues, que também é coordenador do Serviço de Cardiologia do Hospital São José e professor do Unesc, estão doenças estruturais do coração – como insuficiência cardíaca, cardiomiopatias e doenças das válvulas – além de condições sistêmicas como hipertensão, diabetes e distúrbios da tireoide.
“Há também causas não estruturais, como alterações eletrolíticas, uso de álcool, tabagismo, estresse crônico e até apneia do sono. Em indivíduos mais jovens, especialmente abaixo dos 50 anos, não é raro que a origem seja congênita, ou seja, uma alteração elétrica presente desde o nascimento. Já no idoso, o envelhecimento do sistema de condução cardíaco é um fator determinante”, acrescenta o médico.
O professor do Unesc diz que, do ponto de vista clínico, os sintomas da arritmia cardíaca variam amplamente – e essa variabilidade é um dos maiores desafios diagnósticos. “Muitos pacientes são assintomáticos, o que torna a doença silenciosa e perigosa. Quando presentes, os sintomas mais típicos incluem palpitações (sensação de batimento irregular ou acelerado), tontura, fadiga, falta de ar e episódios de desmaio (síncope). Em quadros mais graves, podem surgir dor torácica, queda de pressão e sinais de baixo débito cardíaco, indicando risco iminente. A fibrilação atrial, que é a arritmia mais comum, pode, ainda, evoluir com formação de coágulos e aumentar significativamente o risco de acidente vascular cerebral”, alerta Alex Gomes Rodrigues.
Coração fora de ritmo: quando a arritmia é sinal de alerta
O grande desafio das arritmias não é apenas tratá-las, mas documentar o distúrbio elétrico no momento em que ele acontece. “O diagnóstico da arritmia cardíaca começa com uma boa história clínica – entender quando os sintomas surgem, quanto duram e em que contexto aparecem. A partir daí, entram os exames”, diz Fabrício Vassalo.
O mais básico deles é o eletrocardiograma (ECG), que registra a atividade elétrica do coração em segundos. “No entanto, como muitas arritmias são intermitentes, frequentemente recorremos ao Holter 24 horas, que grava o ritmo ao longo de um dia inteiro, ou até a dispositivos de monitorização prolongada por dias ou semanas. Em casos mais complexos, utiliza-se o Estudo Eletrofisiológico, que permite identificar com precisão a origem da arritmia e, muitas vezes, tratá-la no mesmo procedimento”, ressalta o arritmologista do Hospital Santa Rita.
O tratamento depende diretamente do tipo de arritmia e do perfil do paciente. Em linhas gerais, ele pode seguir três caminhos. “O primeiro é medicamentoso, com uso de antiarrítmicos, anticoagulantes (especialmente na Fibrilação Atrial) e drogas para controle da frequência cardíaca. O segundo envolve procedimentos intervencionistas, como a Ablação por Cateter, hoje considerada uma terapia curativa para diversas arritmias supraventriculares e algumas ventriculares. O terceiro eixo é o implante de dispositivos, como o Marca-passo, indicado em bradicardias, ou o cardiodesfibrilador implantável (CDI), essencial na prevenção de morte súbita em pacientes de alto risco.”
Coração fora de ritmo: quando a arritmia é sinal de alerta
Saber quando procurar atendimento médico é um ponto crítico. “Episódios ocasionais e breves de palpitação podem não representar gravidade, mas sinais como desmaio, tontura intensa, dor no peito, falta de ar ou palpitações persistentes exigem avaliação imediata. Em particular, a associação de arritmia com perda de consciência é considerada um marcador de risco e deve sempre ser investigada com urgência. Dados epidemiológicos brasileiros mostram que a morte súbita cardíaca, frequentemente relacionada a arritmias malignas, responde por uma parcela significativa dos óbitos cardiovasculares, reforçando a importância do diagnóstico precoce”, afirma Fabrício Vassalo.
Quanto à pergunta que mais inquieta pacientes – arritmia cardíaca tem cura? – a resposta é: depende. “Muitas arritmias têm, sim, tratamento curativo, especialmente aquelas causadas por circuitos elétricos bem definidos, como as taquicardias supraventriculares, frequentemente resolvidas com ablação. Outras, como a fibrilação atrial, são geralmente crônicas e controláveis, mas não necessariamente ‘curáveis’ em todos os casos. Ainda assim, com o avanço das técnicas e da tecnologia, o controle da doença evoluiu de forma significativa nas últimas décadas, permitindo que a maioria dos pacientes leve uma vida normal, com risco reduzido de complicações”, conclui o especialista do Hospital Santa Rita.
Crédito: Mariana Flores







