Ilhas de excelência e mar de mediocridade: retrato do ensino superior brasileiro expõe urgência de reforma

O ensino superior no Brasil apresenta um cenário marcado por contrastes: poucas instituições de alto desempenho cercadas por uma grande maioria que cumpre apenas requisitos mínimos. Essa avaliação, feita pelo pesquisador Fabrício Zavarise na segunda parte de seu ensaio, utiliza dados oficiais do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e revela oportunidades de mudança com o acordo Mercosul-União Europeia.

Avaliação do Inep mostra minoria de excelência

Segundo o Índice Geral de Cursos (IGC) de 2023, apenas 3,14% das 2.101 instituições avaliadas alcançaram a pontuação máxima (faixa 5). Nas faixas consideradas insatisfatórias (1 e 2) estão 12,8% (268 unidades), enquanto 58,3% receberam faixa 3, o patamar mínimo permitido. Em outras palavras, seis em cada dez faculdades cumprem apenas o essencial para continuar operando.

Diferenças entre públicas e privadas

Entre as 111 universidades federais analisadas, 94 obtiveram IGC 4 ou 5 e nenhuma caiu nas faixas 1 ou 2. Já no segmento privado com fins lucrativos — que representa 53% do total avaliado — somente 215 das 1.503 instituições atingiram notas 4 ou 5; as demais ficaram entre o desempenho medíocre e o insatisfatório.

Custos elevam barreiras nas escolas de ponta

Algumas instituições privadas, como Insper, FGV, Link School of Business, Inteli, FIAP, Cultura Inglesa e a Faculdade Israelita Albert Einstein, figuram entre as exceções de qualidade. Contudo, os valores cobrados são altos: em 2024, a mensalidade de Direito no Insper era de R$ 7.300, enquanto na FGV atingia R$ 7.596,90. O investimento total para concluir o curso pode chegar a R$ 350 mil–R$ 365 mil, sem incluir moradia, transporte ou material didático, inviabilizando o acesso para a maior parte das famílias brasileiras.

Margens de lucro expressivas nos grandes grupos

Relatório da Hoper Analisa (4T25) mostra que grupos listados em bolsa registram margens EBITDA semelhantes a setores de alta rentabilidade: Afya, 42,6% sobre receita de R$ 913 milhões; Cogna, 34,9% sobre R$ 2,2 bilhões; e Yduqs, 35,2% sobre R$ 1,3 bilhão. O modelo de negócios, segundo Zavarise, baseia-se em ensino a distância de baixo custo, turmas superlotadas e mensalidades altas para estudantes sem acesso a Fies.

Modelo europeu inspira possível reforma

A Declaração de Bolonha, assinada por 29 países europeus em 1999, criou um sistema de 3 anos de graduação e 2 de mestrado, com créditos transferíveis e reconhecimento mútuo de diplomas. Embora não proponha copiar o formato, o autor defende que o Brasil adote lógica semelhante para encurtar cursos, tornar o mestrado acessível e acelerar o doutorado, hoje obtido em média aos 43 anos — contra 28 anos na Europa.

Acordo Mercosul-UE cria pressão por equivalência de títulos

Firmado em 2019, o acordo de associação entre Mercosul e União Europeia amplia a necessidade de reconhecimento de credenciais profissionais nos dois blocos. Atualmente, um mestrado brasileiro não encontra equivalência automática na Europa, e o inverso também é verdadeiro. A Associação Nacional de Pós-Graduandos aponta mais de 20 mil brasileiros impedidos de exercer suas profissões por falta de revalidação de diplomas.

O sistema Arcu-Sur, ferramenta do Mercosul para facilitar a homologação de títulos, cobre número restrito de cursos. Para Zavarise, o Ministério da Educação (MEC) tem oportunidade “rara” de conduzir reforma estrutural, aproveitando a pressão externa gerada pelo tratado comercial.

Auditoria de propósito

O pesquisador propõe que cada curso responda a três perguntas: o que o formando sabe fazer, onde essa competência é reconhecida internacionalmente e quanto tempo é realmente necessário para adquiri-la. Ele argumenta que respostas sinceras levariam ao encerramento de parte significativa das graduações atuais, revisão de especializações lato sensu e reconfiguração de mestrados e doutorados.

Como exemplo, Zavarise relata que seu mestrado em Educação Linguística, obtido na University of Chichester, foi reconhecido em Malta em apenas um mês por meio de processo digital. No Brasil, a revalidação ainda não ocorreu.

Na avaliação do pesquisador, o país enfrenta prazo implícito para alinhar seus diplomas a padrões internacionais. Caso contrário, continuará dependente de um sistema que “confunde formação com permanência e lucro”.

Com informações de Folha Vitória

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