Mães de crianças com deficiência no ES denunciam abandono, sobrecarga e preconceito

O Dia das Mães costuma ser sinônimo de celebração, mas, para muitas mulheres no Espírito Santo, a data expõe uma rotina de solidão, renúncia profissional e exaustão. Mães de crianças com deficiência relatam que assumem praticamente sozinhas cuidados intensivos, enfrentam dificuldades financeiras e ainda lidam com o preconceito diário.

Mercado de trabalho fica para trás

Levantamento do Atlas das Mulheres do Espírito Santo revela que 52,6% das mães atípicas deixaram empregos formais após o diagnóstico dos filhos; 12,8% abandonaram atividades informais e 2,6% saíram do serviço público. Além disso, 67,9% dedicam mais de 40 horas semanais aos cuidados dos filhos e quase metade relata sentimentos constantes de isolamento.

Abandono paterno é realidade frequente

À frente da Associação dos Amigos dos Autistas do Espírito Santo (Amaes), Pollyana Paraguassú acompanha centenas de famílias e afirma que mais de 80% das mães atendidas são solo. “Muitas vezes o pai sai de cena quando recebe o diagnóstico”, observa. Mãe de um jovem autista de 23 anos, ela própria deixou a carreira no Direito para se dedicar integralmente ao filho.

Dificuldade financeira e falta de inclusão

A dona de casa Carla Maria Rodrigues Barbosa, 36 anos, deixou o primeiro emprego com carteira assinada para cuidar de Lorenzo, diagnosticado com autismo há nove anos. Hoje, vive apenas com o Benefício de Prestação Continuada (BPC) do filho. “Só o BPC não sustenta a casa. A terapia é insuficiente e a mãe vira tudo ao mesmo tempo: psicóloga, professora, cuidadora”, desabafa. Ela conta que o menino raramente é convidado para festas ou brincadeiras de rua e que ainda enfrenta olhares de reprovação em ônibus, filas e até na escola.

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Rede de apoio faz diferença

Algumas mães conseguem conciliar trabalho e cuidados graças ao suporte familiar e institucional. É o caso de Aldete Vitória, 43 anos, que trabalha na área de saneamento ambiental, cursa Engenharia Civil e cuida de Luiza, 2 anos, diagnosticada com síndrome de Down e leucemia mieloide aguda. Ela destaca o apoio da empresa para acompanhar terapias e o tratamento oncológico: “Sem a compreensão dos gestores e colegas, seria inviável”.

Direitos existem, mas acesso é difícil

A advogada Lorrana Gomes lembra que a legislação garante prioridade em atendimentos, educação inclusiva, BPC e isenções tributárias, mas a burocracia e a falta de informação afastam muitas famílias dessas garantias. Enquanto isso, as jornadas de cuidados, consultas e tarefas domésticas seguem sem pausa.

“Chamam a mãe atípica de guerreira, mas poucos enxergam o quanto ela está adoecendo”, resume Pollyana Paraguassú. Para ela, políticas públicas robustas e informação acessível são urgentes para que essas mulheres possam retomar a própria vida sem abrir mão do cuidado com os filhos.

Com informações de Folha Vitória

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