Atenas (Grécia) – O investidor Neil Rimer, cofundador da Index Ventures, declarou no fim de maio que a riqueza criada pela inteligência artificial deverá ser redistribuída e que, na sua visão, “seria melhor que isso ocorresse de forma voluntária”. A afirmação foi feita durante um festival de tecnologia na capital grega, onde Rimer passa a maior parte do tempo desde que se afastou do dia a dia da gestora em 2021.
Trajetória e resultados
Fundada há pouco mais de três décadas, a Index Ventures já captou aproximadamente US$ 15 bilhões de investidores externos. Somente no ano passado, a abertura de capital da Figma e a compra da empresa de cibersegurança Wiz pelo Google teriam rendido cerca de US$ 9 bilhões ao fundo. Rimer, que chegou para a entrevista usando camisa amassada e jeans, também integra o conselho da Endeavor Grécia, presidiu o conselho da Human Rights Watch entre 2019 e 2025 e, em 2021, doou US$ 13 milhões à Universidade McGill para a reforma de um prédio que agora leva seu sobrenome.
Fôlego menor para a filantropia
A fala de Rimer acontece em meio a um recuo no engajamento filantrópico de grandes fortunas do setor de tecnologia. O Giving Pledge — compromisso lançado por Warren Buffett e Bill Gates em 2010 para que bilionários doem metade do patrimônio — vem perdendo adesões: 113 famílias assinaram nos cinco primeiros anos, enquanto apenas quatro aderiram em todo o ano de 2024, segundo o The New York Times.
Embora as doações totais nos Estados Unidos tenham atingido o recorde de US$ 592,5 bilhões em 2024, o número de contribuintes vem caindo há cinco anos seguidos, informou a Stanford Social Innovation Review. Dados do Bank of America e da Lilly Family School mostram que a participação de lares de alta renda que doam caiu de 90% em 2017 para 81% no ano passado.
Exemplo no próprio portfólio
A redução do ímpeto filantrópico também aparece na Anthropic, empresa de IA apoiada pela Index. A corporação iguala doações de funcionários em até 25% do valor em ações, mas a maioria dos colaboradores recém-enriquecidos não planeja destinar grandes somas a causas sociais, relatou o consultor financeiro Alex Caswell ao Business Insider. A prioridade, disse ele, tem sido investir como anjo ou abrir novos negócios.
Pressão por tributação
Com a queda das doações espontâneas, propostas de taxação avançam. Na Califórnia, eleitores decidirão neste ano sobre um imposto único de 5% sobre o patrimônio de bilionários residentes. Parte dos mais ricos — entre eles os fundadores do Google, Sergey Brin e Larry Page — já transferiu residência principal para a Flórida. O OpenAI, que avalia abrir o capital em 2027, consideraria o movimento para fugir da base de cálculo do tributo, válido para o patrimônio global até o fim de 2026, segundo fontes próximas.
Outra ideia debatida pela OpenAI é ceder 5% de seu capital ao governo federal; o presidente da empresa, Sam Altman, defende o gesto como forma de “compartilhar ganhos”, enquanto críticos enxergam tentativa de conquistar respaldo político.
Números da nova elite da IA
O patrimônio de Elon Musk ultrapassou US$ 1 trilhão após o IPO da SpaceX, marcando o primeiro trilionário do mundo. A lista da Forbes de 2026 contabilizou 45 novos bilionários ligados à IA, somando US$ 2,9 trilhões. Quando Anthropic e OpenAI concluírem suas ofertas públicas, funcionários das duas companhias terão, juntos, recursos suficientes para comprar quase um terço das residências da região metropolitana de São Francisco, estima o Business Insider.

Imagem: Internet
Concentração histórica
A fatia de riqueza detida pelo 1% mais rico dos lares norte-americanos chegou a 31,7% no terceiro trimestre do ano passado, recorde desde 1989. Embora abaixo dos 45% registrados em 1916, quatro das maiores fortunas dos EUA hoje equivalem a 14% do PIB, contra 4% no auge da Era Dourada, segundo o economista Gabriel Zucman.
Doação x tributação: lições do passado
No fim do século XIX, Andrew Carnegie pregou que milionários deveriam doar o patrimônio em vida, tese que inspirou a filantropia moderna. Menos de meio século depois, a falta de consenso resultou no imposto apelidado de “soak-the-rich”, que elevou a alíquota máxima de renda para 79% sob Franklin Roosevelt.
Alerta aos colegas
Para Rimer, a indústria de tecnologia precisa resgatar um “centro moral” perdido desde que ele, então aluno de Stanford em 1984, via a Apple como exemplo de empresa benéfica para a sociedade. Ele diz ouvir dos próprios filhos comparações entre algumas big techs e fabricantes de armas ou de cigarros, o que considera preocupante.
Críticos pontuam que, como investidor em companhias de IA, Rimer também lucra com a onda atual. Ainda assim, ele insiste que os beneficiários devem escolher a redistribuição antes que ela lhes seja imposta. “Há um caminho fácil e um difícil”, afirma. “Estou apostando que as pessoas escolherão o fácil antes que a história escolha por elas.”
Com informações de TechCrunch











