Falta de chips de memória causada por IA eleva preços e reduz vendas de smartphones na Índia

O aumento da demanda por chips de memória para aplicações de inteligência artificial (IA) já provoca efeitos diretos no mercado de celulares da Índia. No segundo trimestre de 2026 (abril a junho), as remessas de smartphones ao país caíram 10% em comparação com o mesmo período de 2025, a maior retração para um trimestre encerrado em junho nos últimos seis anos, segundo a consultoria Counterpoint Research.

Foco das fabricantes em memórias de alto desempenho

Empresas como Samsung, SK Hynix e Micron vêm destinando parte crescente de sua capacidade produtiva a memórias de alta largura de banda (HBM), usadas em aceleradores de IA e mais rentáveis que os componentes convencionais instalados em celulares e notebooks. O redirecionamento reduziu a oferta de RAM e armazenamento para eletrônicos de consumo, pressionando os preços dos aparelhos.

Mercado indiano mais sensível

A Índia, segundo maior mercado mundial de smartphones depois da China, sente o impacto de forma mais intensa porque cerca de 60% das vendas se concentram em modelos de até 20 000 rúpias (cerca de US$ 210). Na China, as remessas encolheram apenas 2% no mesmo intervalo. “O segmento de entrada é o mais atingido pela alta de custos de memória”, afirmou Tarun Pathak, vice-presidente da Counterpoint.

Com mais de 700 milhões de usuários e população superior a 1,4 bilhão, o país funciona como termômetro para marcas globais em mercados sensíveis a preço. A consultoria estima que o ciclo de troca de aparelhos deve se alongar de 3,5 para cerca de 4 anos, enquanto modelos premium, como os da Apple e da Samsung, sofrem menos.

Desempenho das marcas

No segundo trimestre, a Samsung foi a única grande fabricante a crescer na Índia, com avanço de 2% nas remessas. A Apple recuou 3%, reflexo sobretudo de restrições de oferta e baixos estoques. Compradores de aparelhos mais caros mostraram menor sensibilidade à alta de preços, auxiliados por opções de financiamento, destacou o analista sênior Prachir Singh.

Já o segmento abaixo de 15 000 rúpias (cerca de US$ 150) desabou 45% em relação ao ano anterior. A exposição das marcas chinesas a modelos de entrada fez sua participação combinada cair ao menor nível para um segundo trimestre desde 2020.

Recuo de fabricantes e reorganização de portfólio

Pressionada por margens estreitas, a chinesa OnePlus anunciou que deixará de lançar novos produtos na Europa e na América do Norte, mantendo apenas a operação indiana. Dados da Counterpoint mostram que a participação da China nos embarques globais da marca saltou de 59% para 74% entre o primeiro trimestre de 2025 e o de 2026, enquanto a fatia da Índia caiu de 30% para 19%.

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Imagem: Getty

Para Pathak, a manutenção de múltiplas submarcas só faz sentido se cada uma atingir volume suficiente para diluir custos compartilhados — algo cada vez mais difícil com margens tão apertadas.

Preço sobe até 68%

Os valores dos smartphones vendidos na Índia ficaram entre 4% e 68% mais altos, conforme o modelo, informou Pathak. Diante disso, consumidores optam por aparelhos mais caros, adiam a troca ou recorrem ao mercado de seminovos. Segundo Kiranjeet Kaur, diretora associada de pesquisas da IDC, o foco do mercado migra de crescimento em volume para crescimento em valor, pois os componentes encareceram os modelos de baixo custo.

Com a proximidade da temporada de festividades, fabricantes e varejistas aumentam estoques para assegurar componentes a preços menores antes de novos reajustes. A IDC prevê queda de dois dígitos nas remessas de celulares no segundo trimestre, superior aos recuos de 4,1% no primeiro trimestre e de 5,3% no quarto trimestre de 2025.

Kaur estima que a escassez de memória e os preços elevados continuem até, pelo menos, o fim de 2027. A desvalorização da rúpia agrava o cenário ao encarecer importações, custo repassado integralmente ao consumidor.

Com informações de TechCrunch

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