A exibição de um enorme cartaz do iPod Shuffle na estação 28th Street do metrô de Nova York surpreendeu Tony Fadell, criador do player lançado em 2005. A peça publicitária foi instalada pela Back Market, marketplace francês de eletrônicos recondicionados, para promover dispositivos considerados “obsoletos” como alternativa ao uso constante de smartphones.
Segundo a diretora de marketing da Back Market, Joy Howard, há um cansaço generalizado com a hiperconectividade. “As pessoas estão saturadas e querem uma relação mais consciente com a tecnologia”, afirmou. A empresa decidiu investir em mídia de alto impacto após notar aumento na procura por aparelhos sem telas ou com funções limitadas, fenômeno que Howard batiza de “slowtech”.
Gerar fricção vira diferencial
A lógica da “slowtech” vai na contramão da indústria tradicional, que sempre buscou eliminar etapas. “Agora, a fricção vira uma barreira saudável”, destacou Howard. Exemplos citados pelo público incluem fones com fio, câmeras digitais simples, consoles retrô e até CDs, itens que não exibem notificações nem algoritmos de recomendação.
Ex-executivo de games cria app para reduzir tela
O movimento também inspira novos negócios. Austin Murray, fundador da pioneira JAMDAT nos anos 2000, desenvolve o aplicativo MOQA para limitar o tempo de uso do celular. Ele classifica o excesso de engajamento como “problema de design de produto” e relembra que 53% dos adultos nos Estados Unidos dizem querer diminuir o tempo de tela, segundo pesquisas citadas na reportagem.
Usuários buscam soluções variadas
Para conter a distração, o escritor Calvin Kasulke assina serviços como Opal e Freedom, que bloqueiam redes sociais. Outros vão além e trocam o smartphone por alternativas minimalistas, como o Light Phone, aparelho de Kaiwei Tang que oferece apenas chamadas, mensagens e GPS. De acordo com o criador, a base de usuários entre 20 e 35 anos tem crescido.
Menos telas, mais vestíveis
Tony Fadell defende a redução de displays até em wearables. O mercado parece acompanhá-lo: dados da consultoria Circana indicam alta anual de 88% nos gastos dos norte-americanos com rastreadores físicos sem tela, impulsionados por anéis Oura e pulseiras Whoop, que exigem o celular apenas para visualização posterior dos dados.

Imagem: Getty
IA também quer ajudar a “desconectar”
A promessa de cortar distrações já chegou à inteligência artificial. O Mark II, marcador de livros de US$ 159 criado por Eason Tang, usa IA para anotar trechos lidos sem que o usuário precise pegar o telefone. Embora soe contraditório, o fundador diz que o objetivo é preservar a imersão na leitura.
Além de vender aparelhos antigos, a Back Market investe em prolongar a vida útil de equipamentos. A companhia distribui pendrives com ChromeOS Flex capazes de reativar notebooks fora de linha — e até uma panela de arroz sem suporte oficial, segundo Howard. “As pessoas querem retomar o controle do tempo, da vida e da atenção”, concluiu.
Com informações de TechCrunch












