Uma criança que demonstra facilidade em aprender, faz perguntas impressionantes para sua idade e possui um raciocínio avançado pode, ao mesmo tempo, apresentar dificuldades como esquecer objetos, não concluir tarefas ou ter problemas de organização. Para muitos adultos, essa combinação parece contraditória: ‘Se é tão inteligente, por que não consegue se concentrar ou realizar tarefas simples?’
A resposta pode estar em uma condição ainda pouco compreendida: a dupla excepcionalidade.
Esse termo refere-se à presença simultânea de altas habilidades ou superdotação, juntamente com uma condição que traz desafios ao aprendizado, como o TDAH, transtorno do espectro autista ou dificuldades específicas de aprendizagem. Neste contexto, discutimos a interação entre altas habilidades/superdotação (AH/SD) e TDAH.
Crianças com essa combinação de características podem ter um perfil que, à primeira vista, parece contraditório. Elas conseguem aprender rapidamente temas complexos, mas podem esquecer instruções recém-recebidas. Podem se engajar intensamente em assuntos que despertam seu interesse, mas têm dificuldade em manter a atenção em tarefas repetitivas ou que não consideram estimulantes. Além disso, podem ter ideias extremamente criativas, enfrentando ao mesmo tempo desafios na organização e finalização de atividades.
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Isso ocorre porque a elevada capacidade intelectual não exclui a presença do TDAH; são aspectos distintos do funcionamento infantil. Pesquisas sobre dupla excepcionalidade ressaltam a importância de entender tanto as potencialidades quanto as dificuldades das crianças.
Um dos principais desafios está no fato de que uma condição pode ocultar a outra. Uma criança com altas habilidades pode utilizar suas capacidades cognitivas para compensar as dificuldades do TDAH, mantendo um bom desempenho acadêmico. Por isso, problemas relacionados à atenção e organização podem passar despercebidos por pais e professores.
Por outro lado, as dificuldades causadas pelo TDAH podem ser tão significativas que as altas habilidades não se destacam. Em algumas situações, a criança é vista apenas como um aluno mediano, mesmo que haja uma grande diferença entre seu potencial e seu desempenho real.
Frases como ‘Ele é inteligente, mas preguiçoso’ ou ‘Só faz quando quer’ podem surgir. Antes de atribuir comportamentos à falta de esforço, é fundamental entender o que realmente está acontecendo.
A identificação da dupla excepcionalidade requer uma avaliação cuidadosa. Não basta medir o QI ou observar a performance escolar; é essencial investigar habilidades cognitivas, atenção, memória, funções executivas, comportamento e aspectos emocionais, além de considerar informações da família e da escola.
Uma avaliação abrangente é crucial, pois crianças com altas habilidades muitas vezes desenvolvem estratégias próprias que podem encobrir dificuldades, fazendo com que o TDAH passe despercebido. Da mesma forma, se os sintomas do TDAH forem muito evidentes, as altas habilidades podem não ser reconhecidas, resultando em intervenções apenas para as dificuldades, sem acesso aos desafios necessários para seu pleno desenvolvimento.
Reconhecer a dupla excepcionalidade não é apenas rotular a criança, mas sim entender que potencialidades e dificuldades podem coexistir. Uma criança pode precisar de auxílio para se organizar, enquanto também requer desafios intelectuais maiores. Ao focar somente nas dificuldades, limitamos seu potencial; ao nos concentrarmos apenas na inteligência, podemos falhar em oferecer o suporte necessário.
Compreender esse perfil permite que família, escola e profissionais desenvolvam estratégias mais adequadas, respeitando tanto as necessidades quanto as habilidades da criança. Afinal, a inteligência não elimina as dificuldades de atenção, assim como o TDAH não apaga as capacidades excepcionais que podem se destacar.











