Autoridades russas recorreram a um equipamento de perícia digital da israelense Cellebrite para invadir o iPhone do opositor Andrey Pivovarov em junho de 2021, mesmo depois de a companhia ter declarado a suspensão imediata de negócios com órgãos do governo de Vladimir Putin em março daquele ano. A informação consta em estudo do Citizen Lab, grupo de pesquisa da Universidade de Toronto especializado em direitos digitais.
A equipe do Citizen Lab identificou vestígios do UFED — dispositivo da Cellebrite capaz de desbloquear e extrair dados de celulares — no telefone de Pivovarov. O político havia sido detido em maio de 2021, quando agentes confiscaram seu iPhone 12 e um MacBook. Segundo documento judicial repassado pelo próprio opositor aos pesquisadores, peritos do Centro de Exames Criminalísticos da Rússia utilizaram o UFED para acessar conversas no WhatsApp e no Telegram e buscaram termos políticos e nomes de outros dissidentes.
Três meses antes, em 4 de março de 2021, a Cellebrite divulgou que interromperia “imediatamente” vendas, suporte e atualizações de software ao governo russo, além de cancelar licenças existentes. A empresa afirma, em seu site, ter a capacidade de desativar dispositivos ou bloquear atualizações a clientes vetados. O caso de Pivovarov indica, porém, que o bloqueio não foi efetivo.
Para Eitay Mack, advogado israelense de direitos humanos que acompanha o setor de vigilância, a simples revogação de licenças não impede o uso indevido das ferramentas. Ele lembra que a Cellebrite não esclarece se exige a devolução ou destruição dos aparelhos já fornecidos.
John Scott-Railton, pesquisador sênior do Citizen Lab, defende que a companhia implemente mecanismos para "bricar" remotamente equipamentos utilizados de forma abusiva e adote marcas d’água criptográficas que permitam rastrear qual unidade realizou cada extração de dados.
Em e-mail enviado ao Citizen Lab, compartilhado com o TechCrunch, David Gee, diretor-de-marketing da Cellebrite, reiterou que “todas as vendas e serviços à Federação Russa foram encerrados em março de 2021” e que qualquer uso do hardware da empresa no país após essa data é “totalmente não autorizado”. Gee e o porta-voz Victor Cooper não responderam a perguntas adicionais do veículo.

Imagem: Internet
A Cellebrite, com sede em Israel e segundo escritório nos Estados Unidos, fornece tecnologias forenses a forças de segurança de diversos países. Nos últimos anos, a companhia também rompeu contratos com Bangladesh, China e Hong Kong, Mianmar e Sérvia após denúncias de abusos.
Pivovarov chefiava o extinto movimento de oposição Open Russia. Condenado a quatro anos de prisão, foi libertado em agosto de 2024 em troca de prisioneiros que incluiu o repórter do Wall Street Journal Evan Gershkovich. A embaixada russa em Washington não comentou o caso.
Com informações de TechCrunch













