O avanço dos agentes de inteligência artificial está abalando a confiança de investidores no tradicional modelo de software como serviço (SaaS), baseado em cobrança por usuário. Ferramentas capazes de escrever código e executar tarefas, como Claude Code, da Anthropic, e Codex, da OpenAI, reduziram as barreiras para que empresas desenvolvam soluções próprias, deslocando a decisão clássica de “comprar ou construir” em direção à segunda opção.
O sinal de alerta ganhou força quando a fintech Klarna abandonou, no fim de 2024, o CRM da Salesforce e passou a usar um sistema interno suportado por IA. Desde então, papéis de companhias listadas como Salesforce e Workday vêm caindo. Em fevereiro de 2026, sucessivas ondas de vendas retiraram quase US$ 1 trilhão de valor de mercado do setor de software e serviços.
Pressão sobre contratos e margens
Segundo Abdul Abdirahman, investidor da F-Prime, o modelo de cobrança por assento perde sustentação quando poucos agentes de IA conseguem fazer o trabalho de vários funcionários. Clientes insatisfeitos com preços agora dispõem da alternativa de criar versões próprias de aplicações, o que pressiona negociações de renovação.
Mercado fala em “SaaSpocalypse”
Analistas classificam o momento como “SaaSpocalypse” e falam em “FOBO” – medo de ficar obsoleto. Embora enxerguem uma reação exagerada, investidores afirmam que a mudança estrutural é real. “Não é o fim do SaaS, e sim uma velha cobra trocando de pele”, avalia Aaron Holiday, sócio da 645 Ventures.
IA nativa desafia incumbentes
Startups criadas já com IA no centro do produto avançam rapidamente, enquanto grandes fornecedoras de SaaS incorporam funcionalidades de IA de forma incremental. Alguns novos players adotam precificação por consumo de tokens; outros testam cobrança baseada em resultado, caso da Sierra, empresa do ex-CEO da Salesforce Bret Taylor, que alcançou US$ 100 milhões em receita anual recorrente em menos de dois anos.

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Futuro das aberturas de capital
Relatório do Crunchbase indica ausência de pedidos de IPO de empresas SaaS apoiadas por capital de risco no horizonte próximo. Companhias privadas de grande porte, como Canva e Rippling, enfrentam um ambiente instável para listar ações, enquanto o mercado aguarda dados financeiros das primeiras empresas nativas de IA candidatas a abrir capital, entre elas OpenAI e Anthropic.
Para Abdirahman, a queda nas ações reflete dúvidas sobre o “valor terminal” do software. Holiday acrescenta que, apesar da euforia com IA, as empresas continuarão precisando de sistemas que cumpram requisitos de conformidade, auditoria e durabilidade financeira.
Com informações de TechCrunch







