Brasília – Na segunda parte de uma série iniciada em 9 de junho, o colunista e ensaísta Fabrício Zavarise sustenta que o idioma predominante no Brasil é uma língua crioula, batizada de “pretuguês” ou “indioguês”, e não o português europeu. Segundo ele, o vocabulário e a estrutura usados pelos brasileiros resultam da fusão de línguas africanas – como kimbundu, kikongo e iorubá – e indígenas com um português do século XVIII, transmitido majoritariamente por populações não portuguesas.
Origem do termo
Zavarise recorda que a filósofa e antropóloga Lélia Gonzalez cunhou a expressão “pretuguês” na década de 1980 para destacar a influência africana no modo de falar do país. Gonzalez mencionava, por exemplo, a troca do “l” pelo “r” em palavras como “Framengo” como herança de idiomas africanos que não possuem o fonema “l”.
Racismo linguístico
O autor afirma que a diferença entre a fala cotidiana e a norma-padrão foi definida politicamente logo após a abolição da escravidão, em 1888. Filólogos da elite branca decidiram adotar o modelo de correção gramatical de Portugal por considerarem o português do Brasil “contaminado pela miscigenação racial”. Entre 1880 e 1930, o país recebeu quatro milhões de imigrantes europeus em política oficial de branqueamento, e a padronização da língua integrou esse projeto.
Para Zavarise, dicionários brasileiros também apagaram o protagonismo africano e indígena ao registrar etimologias apenas como “africano”, sem especificar a origem.
Mecanismos atuais de apagamento
O colunista aponta três fatores que, na visão dele, mantêm o racismo linguístico:

Imagem: Internet
- Escola: O sociolinguista Marcos Bagno classifica o preconceito linguístico como reflexo de preconceito social. O Inaf 2024 indica que 29% da população de 15 a 64 anos é analfabeta funcional; entre quem concluiu o ensino médio, o índice chega a 17%. Apenas 10% dos brasileiros são proficientes em leitura, escrita e matemática.
- Queda da leitura: A pesquisa Retratos da Leitura 2024 mostra que 53% dos brasileiros não leram sequer parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. O país perdeu 6,7 milhões de leitores em quatro anos, e a falta de paciência para ler saltou de 18% em 2007 para 40% em 2024.
- Isolacionismo: Redes sociais reforçam a visibilidade da fala popular, mas, para cerca de 200 milhões de pessoas com baixo letramento, essa é a única prática linguística. Além disso, o Brasil pouco consome produções de Angola, Moçambique, Timor-Leste ou Cabo Verde, o que, segundo o autor, impede o reconhecimento de laços comuns.
Reconhecimento externo
Zavarise observa que, nos demais oito países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), é comum referir-se ao idioma do Brasil como “brasileiro”, enquanto apenas os próprios brasileiros insistem em chamá-lo de português.
O articulista anunciará, na terceira parte da série, propostas para “honestidade” com a língua falada no país.
Com informações de Folha Vitória







