A Anthropic anunciou na noite de sexta-feira (12) a suspensão do acesso aos seus novos modelos de inteligência artificial Fable 5 e Mythos 5 para todos os estrangeiros, inclusive funcionários, após receber uma ordem do governo dos Estados Unidos. A medida, motivada por preocupações de segurança, desencadeou discussões na Índia sobre a dependência de tecnologias desenvolvidas no exterior.
Relatos apontam que o alerta inicial às autoridades americanas teria partido do CEO da Amazon, Andy Jassy. Segundo o site The Information, a Casa Branca não pretende aplicar restrições semelhantes a outras empresas de IA e atribui o episódio a falhas da própria Anthropic no controle de vulnerabilidades de “jailbreak”. A companhia contesta a avaliação e afirma que a ação não deveria ter sido tomada.
Mercado indiano no centro da controvérsia
A decisão ocorre poucos dias depois de a empresa firmar parceria com a Tata Consultancy Services para ampliar o uso corporativo de IA no país. Índia e Estados Unidos são, respectivamente, o segundo e o primeiro maiores mercados para a Anthropic e para a OpenAI.
Para Aakrit Vaish, fundador da plataforma de capital de risco Activate, a suspensão “muda completamente o jogo” e reforça a necessidade de o país investir em modelos soberanos. Ele pretende incentivar startups de seu portfólio a priorizarem alternativas de código aberto.
Vijay Rayapati, CEO da Atomicwork, teme impactos competitivos. A empresa, com cerca de 25 funcionários nos EUA e a maior parte da engenharia em Bengaluru, avalia que equipes multinacionais podem ficar em desvantagem se o acesso a modelos de ponta passar a depender de requisitos de cidadania.
Pressão por estratégia nacional
A repercussão também mobilizou líderes do setor. Sridhar Vembu, fundador da Zoho, classificou a tecnologia como “arma suprema” e defendeu o uso de modelos menores, inclusive chineses, de código aberto. O investidor e ex-executivo da Infosys, Mohandas Pai, propôs um fundo anual de 500 bilhões de rúpias (cerca de US$ 5 bilhões) para IA e deep tech, além de um programa de garantia de crédito de 2 trilhões de rúpias (aproximadamente US$ 21 bilhões) para infraestrutura de nuvem, hardware e semicondutores.
Hoje, o principal programa federal, a Missão IndiaAI, prevê 103,72 bilhões de rúpias (aprox. US$ 1,2 bilhão) em cinco anos, focados em computação, apoio a startups e desenvolvimento de capacidades locais.
Desafios além do capital
Hemant Mohapatra, sócio da Lightspeed, avalia que os maiores gargalos são talento, acesso a poder de computação e execução, e não apenas investimentos. Ele estima que treinar um modelo de fronteira pode custar de centenas de milhões a vários bilhões de dólares.

Imagem: Internet
Entre as poucas iniciativas indianas de modelos fundacionais, a Sarvam lançou versões de código aberto no início do ano, enquanto a Krutrim migrou o foco para serviços de infraestrutura em nuvem e IA.
Implicações geopolíticas
Para o consultor de políticas tecnológicas Prasanto Roy, o episódio reforça preocupações com autonomia estratégica, lembrando a exclusão da Rússia do sistema SWIFT em 2022. “Não existe LLM estrangeiro geopoliticamente neutro”, disse. Ele prevê reação nacionalista à decisão de Washington, com efeitos que extrapolam a Anthropic.
O debate ocorre em meio a movimentos de empresas estrangeiras para revisar operações globais. Nesta semana, a americana Opendoor encerrou seu escritório na Índia, dois anos após a inauguração, citando a necessidade de aproximar operações de clientes nos EUA e adotar equipes menores e “nativas de IA”.
Enquanto governo, investidores e empreendedores discutem próximos passos, a suspensão da Anthropic expõe como decisões externas podem influenciar o acesso da Índia a tecnologias que ganham peso estratégico crescente.
Com informações de TechCrunch







