Casa Branca bloqueia exportação dos modelos de IA Fable e Mythos da Anthropic

A Casa Branca determinou na última sexta-feira, 19 de junho, que a Anthropic suspenda a exportação de seus modelos avançados de inteligência artificial Fable e Mythos para qualquer pessoa fora dos Estados Unidos, além de proibir o acesso por cidadãos estrangeiros que se encontrem em território norte-americano. A empresa desligou imediatamente os sistemas, que permanecem indisponíveis há uma semana.

A ordem, fundamentada em “preocupações de segurança nacional” não especificadas, representa o primeiro grande ensaio do governo dos EUA para conter o avanço de IAs de fronteira por meio de controles de exportação — estratégia já tentada, com resultados irregulares, em tecnologias como criptografia e spyware.

O que motivou a restrição

Dois episódios levaram Washington a agir. O primeiro veio à tona quando a Anthropic concedeu acesso ao Mythos a uma operadora sul-coreana de telecomunicações identificada por autoridades norte-americanas como tendo supostas ligações com a China. A empresa, amplamente apontada como a SK Telecom, nega qualquer relação chinesa.

Em seguida, o presidente-executivo da Amazon, Andy Jassy, alertou o governo depois que pesquisadores da companhia afirmaram ter contornado salvaguardas do modelo Fable 5. A Anthropic contesta o termo “jailbreak” e diz que se tratou de uma falha limitada, já corrigida.

A soma dos fatos levou o Departamento de Comércio a emitir a ordem de controle de exportação. Segundo relatos, a Anthropic teve cerca de 90 minutos para restringir o uso dos modelos.

Precedentes de controle digital

Nos anos 1990, Washington tentou impedir a disseminação do software de criptografia Pretty Good Privacy (PGP) ao investigá-lo como material bélico. O criador, Phil Zimmermann, publicou o código em livro e venceu a disputa, marco que abriu caminho para a atual criptografia ponta a ponta usada em aplicativos como Signal e WhatsApp.

Já na década de 2010, governos ampliaram o Acordo de Wassenaar para obrigar fabricantes de spyware a solicitar licenças de exportação. Na prática, a medida esbarrou em duas fragilidades: a adesão opcional — países como Israel, lar de alguns dos maiores desenvolvedores de softwares espiões, não participam — e a aplicação desigual dentro dos signatários. A italiana Hacking Team, por exemplo, recebeu autorização oficial para vender ferramentas a regimes que perseguem jornalistas e ativistas.

Mesmo na Europa, diversas investigações não impediram que grupos como o consórcio Intellexa migrassem para mercados com regras mais brandas, enquanto a alemã FinFisher encerrou atividades apenas após investigação criminal no país.

Próximos passos para a Anthropic

O impasse entre a Anthropic e o governo Trump permanece. Analistas veem duas possibilidades: a administração recuar para preservar a competitividade das empresas de IA dos EUA, reconhecendo que laboratórios estrangeiros — inclusive na China — podem atingir capacidade similar; ou exigir licença prévia para que companhias norte-americanas atendam clientes estrangeiros, impondo custos adicionais e potencial queda de receita.

Experiências passadas sugerem que controles estatais de exportação têm eficácia limitada para conter o uso malicioso de tecnologias digitais de uso dual, mas, por ora, Fable e Mythos seguem fora do alcance de usuários fora dos EUA.

Com informações de TechCrunch

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