O colunista e ensaísta Fabrício Zavarise defende que o sistema de ensino brasileiro assuma formalmente a existência de duas línguas em circulação no país: o português padrão, adotado como idioma oficial, e uma língua crioula de base portuguesa moldada por línguas africanas e indígenas. A proposta integra a terceira parte de uma série iniciada em 9 e 11 de junho.
Por que a mudança é necessária
Segundo o autor, a escola costuma classificar como “erro” estruturas amplamente usadas pela população, resultado de um processo histórico que uniu o português trazido pelos colonizadores aos falares bantos, iorubás e de povos originários. Para Zavarise, essa prática reproduz políticas de branqueamento linguístico consolidadas no século XIX, quando dicionários eliminaram vocábulos africanos e estudantes passaram a ser penalizados por falar a língua de seus ancestrais.
Conceito de diglossia
A saída indicada é adotar o modelo de diglossia, conceito cunhado por Charles Ferguson em 1959 e ampliado por Joshua Fishman em 1967. Nessa configuração, coexistem uma variedade “alta”, utilizada em esferas formais, e uma variedade “baixa”, empregada no cotidiano. O autor lembra que fenômenos semelhantes ocorrem em Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Macau, onde a população distingue o português de seus crioulos nativos.
Quatro rupturas sugeridas
Zavarise elenca quatro mudanças para concretizar o reconhecimento:
1. Encerrar a prática de considerar a língua crioula um desvio e, em vez disso, tratá-la como legítima.
2. Incluir nos currículos a história sociolinguística do Brasil, abordando influências indígenas, africanas e o processo de branqueamento.
3. Financiar políticas públicas que reflitam a diversidade de mais de 250 línguas faladas no território nacional.
4. Superar a contradição de acusar a norma culta portuguesa de opressiva enquanto se tenta enquadrar o crioulo como se fosse português.
Ensino bilíngue como “libertação”
Para o pesquisador, ensinar português padrão como segunda língua — e não como correção da fala popular — evitaria o “epistemicídio” descrito pela filósofa Sueli Carneiro, consistente em destruir um saber sem reconhecer sua existência. Ao mesmo tempo, daria aos estudantes as competências exigidas em ambientes formais no Brasil e nos demais oito países lusófonos.

Imagem: Internet
O colunista critica ainda a proposta de criar um “idioma brasileiro” único, argumentando que tal escolha privilegiaria apenas uma região do país e repetiria novos apagamentos culturais.
A série encerra afirmando que reconhecer a diglossia seria um passo “intelectualmente honesto” diante de uma população que alterna naturalmente entre as duas línguas, mas ainda é punida por usar a que aprendeu em casa.
Com informações de Folha Vitória







