Demissões atribuídas à IA crescem 44% em um ano e expõem disparidade de riqueza no setor de tecnologia

Empresas de tecnologia estão somando lucros recordes enquanto desligam milhares de funcionários, amparadas no argumento de que a inteligência artificial (IA) torna postos de trabalho redundantes. Levantamento da plataforma de recrutamento TrueUp aponta 363 eventos de demissão no setor apenas neste ano, atingindo quase 150 000 pessoas — ritmo aproximado de 974 cortes diários, 44% mais rápido que em 2025.

Maior volume mensal em dois anos

Segundo a consultoria Challenger, Grey & Christmas, maio registrou quase 40 000 desligamentos em tecnologia, o maior total mensal desde 2024. Pela terceira vez consecutiva, a IA apareceu como o motivo mais citado para cortes em todas as indústrias.

Ceticismo sobre o “culpado”

Parte do mercado questiona se a automação é realmente a responsável pelos enxugamentos. A Block, de Jack Dorsey, demitiu quase metade do quadro no início do ano. O executivo atribuiu a medida a um “novo modo de trabalho” proporcionado pela IA, mas posteriormente admitiu ter contratado em excesso durante a pandemia.

O investidor Marc Andreessen classificou a IA como “bala de prata” usada para justificar equipes infladas. Em podcast recente, afirmou que grandes corporações estariam superdimensionadas entre 25% e 75%.

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Casos recentes de cortes

No início de junho, a Uber dispensou 23% de sua área de Pessoas (RH e recrutamento), impactando menos de 1% dos 34 000 colaboradores. A empresa negou relação com IA, embora seu diretor de tecnologia tenha revelado, um mês antes, que o orçamento de codificação em IA para 2026 foi consumido em apenas quatro meses, levando à limitação de gastos com ferramentas como Cursor e Claude Code.

Fortunas criadas em ritmo acelerado

Enquanto trabalhadores perdem emprego, executivos e investidores ligados à IA acumulam riquezas sem precedentes:

  • A fabricante de chips Cerebras Systems abriu capital no início de maio; as ações subiram 68% no primeiro dia, avaliando a empresa em US$ 67 bilhões e transformando os cofundadores Andrew Feldman e Sean Lie em bilionários (os papéis já recuaram 30% desde então).
  • Abertura de capital da SpaceX, na última sexta-feira, levou a companhia a valer US$ 2,1 trilhão em mercado, potencialmente criando 4 400 milionários e 400 centimilionários, além de tornar Elon Musk um trilionário no papel.
  • Anthropic e OpenAI preparam IPOs avaliados em torno de US$ 1 trilhão cada.
  • Em março, Mark Zuckerberg comprou uma mansão de US$ 170 milhões em Miami; dois meses depois, a Meta anunciou o corte de 8 000 funcionários (10% da força de trabalho).

Contexto econômico desfavorável

Os desligamentos ocorrem em meio a custos de vida ascendentes nos Estados Unidos. Prêmios de planos de saúde patrocinados por empregadores devem subir entre 6% e 7% este ano, o dobro da inflação. Desde 2020, o preço mediano de imóveis residenciais avançou 28%, enquanto as taxas hipotecárias quase duplicaram.

Pesquisa New York Times/Siena de janeiro mostrou que 65% dos eleitores consideram inalcançável um padrão de vida de classe média; outro levantamento, mais recente, indica que 76% dos norte-americanos veem o custo de vida como principal preocupação econômica — salto de 18 pontos em 12 meses.

Paralelo com 2008

Analistas recordam que a crise financeira de 2008, marcada por resgates a bancos e desemprego em massa, deu origem ao movimento Occupy Wall Street três anos depois. Agora, empresas rentáveis atribuem cortes à IA enquanto alguns executivos amealham fortunas, aumentando a tensão social. Block, Atlassian e Cloudflare já viram seus papéis subir após associarem demissões à inteligência artificial.

A situação levanta dúvidas sobre até que ponto o discurso da IA como motor das demissões pode se tornar um “barril de pólvora” entre trabalhadores pressionados por um cenário econômico cada vez mais oneroso.

Com informações de TechCrunch

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