As primeiras rodadas de captação para empresas de inteligência artificial (IA) dispararam nos últimos dois anos, elevando o valor pós-dinheiro de negócios em estágio inicial a patamares sem precedentes. Fundadores e investidores relatam que cheques de US$ 10 milhões por participações avaliadas em até US$ 45 milhões tornaram-se comuns, cenário impensável até pouco tempo atrás.
Investimento avança para estágios cada vez mais iniciais
Pete Martin, que levantou US$ 5 milhões para a Realm, sua empresa de cibersegurança baseada em IA, a uma avaliação de US$ 25 milhões em 2024, afirma que esse múltiplo hoje “parece modesto”. Segundo ele, o mesmo tipo de companhia já consegue captar o dobro, por quase o dobro do valuation.
A disposição para pagar caro fica evidente em eventos como o Demo Day da Y Combinator, realizado em março. De acordo com Ashley Smith, sócia da Vermilion, várias startups exibiam contratos de clientes na casa dos seis ou sete dígitos — inclusive uma com apenas oito semanas de vida — e pediam US$ 5 milhões a valor pós-dinheiro de US$ 40 milhões. Grandes fundos de venture capital, capitalizados, estão entrando mais cedo nas rodadas e puxando preços para cima, enquanto gestoras menores se veem, muitas vezes, fora do jogo.
Casos de tração relâmpago redefinem expectativas
A fundadora Shanea Leven, da plataforma corporativa de IA Empromptu, credita parte da escalada a exemplos como o da Cursor, que atingiu US$ 100 milhões de receita em 12 meses no início de 2025. Outras empresas — Lovable, Bolt, OpenEvidence e ElevenLabs — também exibiram crescimentos meteóricos, alimentando a percepção de que o próximo alvo não é se tornar um “unicórnio” de US$ 1 bilhão, mas chegar a US$ 50 bilhões.
Marlon Nichols, managing partner da MaC Ventures, confirma a mudança. Quando lançou o fundo, em 2019, o tíquete médio de entrada era de US$ 2,5 milhões; hoje está em US$ 5 milhões. Suas duas últimas apostas seed já faturavam mais de US$ 2 milhões, tinham pilotos pagos com grandes empresas e foram avaliadas entre US$ 25 milhões e US$ 30 milhões.
Currículo pesa e inflaciona valuations
Investidores buscam fundadores experientes ou com passagem por gigantes da IA. A disputa por talentos elevou negócios como o da ex-OpenAI Mira Murati, que captou US$ 2 bilhões para a Thinking Machine Labs a uma avaliação de US$ 12 bilhões. Leven, empreendendo pela segunda vez, diz que seu valuation dobrou em relação ao da startup anterior e que o processo de captação — três semanas — foi muito mais rápido do que o de colegas fora do setor de IA.

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Pressão se desloca para o pré-seed
Com as rodadas seed mais caras, fundos especializados recuam um estágio. Jonathan Lehr, da Work-Bench, passou a investir com conforto no pré-seed a partir de um veículo de US$ 160 milhões. Já a Patron, onde Amber Atherton é parceira, ampliou o tíquete médio de seu segundo fundo (US$ 100 milhões) para até US$ 5 milhões, mais que o dobro do primeiro.
Expectativas mais altas e menor margem para erros
Segundo Atherton, hoje não basta lançar um produto; é preciso mostrar usuários, receita imediata e narrar como a empresa superará rivais em um horizonte de US$ 50 bilhões. Para Lehr, valuations inflados reduzem espaço para pivôs e aumentam a cobrança caso a evolução não acompanhe o capital recebido.
Pete Martin reforça o alerta: quem não alcança a tração compatível pode ficar “caro demais para novos investidores”, mas ainda sem resultados que justifiquem a próxima rodada.
Com informações de TechCrunch







