A Índia incluiu em seu orçamento anual, apresentado no domingo (1º), um pacote de incentivos que concede isenção total de impostos até 2047 às receitas obtidas por provedores de nuvem estrangeiros com serviços vendidos a clientes fora do país, desde que os processos rodem em data centers instalados em território indiano.
Ao detalhar a proposta no Parlamento, a ministra das Finanças, Nirmala Sitharaman, explicou que vendas destinadas ao mercado doméstico deverão passar por revendedoras constituídas na Índia e serão tributadas localmente. O documento também introduz um “safe harbour” de 15% sobre custos para operadores indianos que prestem serviços a empresas vinculadas no exterior.
Gigantes globais aceleram aportes
A medida chega em meio à corrida de Amazon, Google e Microsoft para ampliar capacidade computacional e atender à demanda de inteligência artificial. Em outubro, o Google anunciou US$ 15 bilhões para criar um hub de IA e expandir infraestrutura no país, somando-se aos US$ 10 bilhões prometidos em 2020. Dois meses depois, a Microsoft revelou planos de investir US$ 17,5 bilhões até 2029, enquanto a Amazon elevou para cerca de US$ 75 bilhões seu compromisso total até 2030, após anunciar mais US$ 35 bilhões.
Projetos locais ganham fôlego
Entre as iniciativas domésticas, o consórcio Digital Connexion — formado por Reliance Industries, Brookfield Asset Management e Digital Realty Trust — pretende aplicar US$ 11 bilhões até 2030 na construção de um campus de 1 GW voltado a IA em Visakhapatnam, no estado de Andhra Pradesh. Em separado, o Grupo Adani planeja investir até US$ 5 bilhões, em parceria com o Google, em um projeto similar.
Infraestrutura sob pressão
Apesar do otimismo, especialistas alertam para entraves como oferta irregular de energia, custos elevados de eletricidade e escassez de água — gargalos que podem desacelerar obras e elevar despesas operacionais. Para Rohit Kumar, da consultoria The Quantum Hub, o governo passou a tratar data centers como setor estratégico, mas ainda enfrenta desafios de acesso a terrenos e autorizações estaduais.
Projeções da Future Shift Labs indicam que a capacidade instalada nos data centers indianos deve ultrapassar 2 GW em 2026 — ante pouco mais de 1 GW hoje — e superar 8 GW até 2030, apoiada por investimentos superiores a US$ 30 bilhões. Segundo o cofundador Sagar Vishnoi, a renúncia fiscal até 2047 representa uma aposta de longo prazo na presença das grandes empresas globais de tecnologia.
Foco em semicondutores e componentes eletrônicos
O orçamento também amplia iniciativas para reduzir a dependência de importações na cadeia de hardware. A segunda fase da Missão de Semicondutores da Índia priorizará produção de equipamentos, materiais e propriedade intelectual de chips, além de centros de pesquisa e formação de mão de obra.
A dotação do Esquema de Fabricação de Componentes Eletrônicos subiu para 400 bilhões de rúpias (cerca de US$ 4,36 bilhões), ante 229,19 bilhões de rúpias (aproximadamente US$ 2,5 bilhões). Lançada em abril de 2025, a política reembolsa parte dos custos de fabricantes de placas de circuito, módulos de câmera, conectores e outras peças, de acordo com o aumento de produção e investimento.

Imagem: Internet
Outro ponto prevê isenção fiscal por cinco anos, a partir de abril, para empresas estrangeiras que forneçam equipamentos e ferramentas a fabricantes de eletrônicos em zonas aduaneiras, mudança que pode beneficiar a cadeia da Apple.
Matérias-primas críticas e e-commerce
Para garantir acesso a minerais raros, o governo apoiará estados como Odisha, Kerala, Andhra Pradesh e Tamil Nadu na criação de corredores dedicados à mineração, processamento e fabricação de ímãs de terras raras — continuidade de um programa de incentivos iniciado em 2025.
No comércio exterior, foi eliminado o limite de 1 milhão de rúpias (cerca de US$ 11 mil) por remessa de exportações via courier, abrindo espaço para que artesãos, pequenas indústrias e startups vendam mais no exterior. Procedimentos para devoluções e rejeições também serão digitalizados.
Com esses anúncios, Nova Délhi busca firmar o país como polo global de infraestrutura tecnológica, apostando no crescimento da IA e na realocação de cadeias de suprimentos.
Com informações de TechCrunch







