Empresários de tecnologia de Minneapolis suspendem rotinas para amparar comunidade durante operações do ICE

MINNEAPOLIS (03/02/2026) – A intensificação das operações de imigração nos Estados Unidos tem paralisado parte do ecossistema de tecnologia de Minneapolis. Fundadores e investidores locais relatam que deixaram o trabalho em segundo plano para socorrer vizinhos e colegas após a morte de várias pessoas, entre elas pelo menos dois cidadãos norte-americanos, durante ações de agentes federais.

Oito empreendedores ouvidos afirmam dedicar os dias a embalar alimentos em igrejas, fazer doações e oferecer apoio emocional. “Há um cansaço geral. Parece o que acontece depois de um desastre natural”, disse o investidor Scott Burns, que passou a frequentar templos para montar cestas básicas destinadas a moradores com medo de sair de casa.

Clima de tensão nas ruas

Moradores descrevem agentes do Immigration and Customs Enforcement (ICE) à paisana, portando armamento pesado, em estações de transporte público, estacionamentos e portas de escolas. Um fundador negro, que pediu anonimato, agora carrega o passaporte o tempo todo, apesar de ser cidadão norte-americano. Ele interrompeu uma reunião virtual ao saber que agentes detinham alguém no bairro onde vive sua mãe – ligou imediatamente para pedir que ela também portasse o documento.

O latino Efraín Torres, que trabalha de casa, relata ouvir buzinas e apitos de manifestantes avisando sobre batidas. Segundo ele, placas pelas ruas informam quando “um vizinho foi levado pelo ICE”. Torres diz ter sido abordado mais de uma vez e evita se expor: “A linha que me separa de ser agredido é um encontro ao acaso”.

Operação Metro Surge

Mais de 3 000 agentes federais foram deslocados para Minnesota dentro da Operação Metro Surge, fazendo com que, em Minneapolis, o efetivo federal supere em quase três para um o da polícia local, segundo a senadora Amy Klobuchar. Desde janeiro do ano passado, mais de 2 000 pessoas foram presas pelo ICE no estado.

Minnesota abriga uma das maiores comunidades somalis do país, grupo já alvo de outras ações do governo Trump – que também entrou em choque com a deputada Ilhan Omar, o governador Tim Walz e o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, todos democratas.

Impacto direto nas startups

Empreendedores relatam dificuldade de manter foco. Torres proibiu o uso de aplicativos de transporte na empresa depois que engenheiros com visto H-1B passaram a ser seguidos por homens armados. Ele e a esposa avaliam deixar o estado.

O investidor Reed Robinson conta que fundadores com filhos organizaram rodízio para buscar crianças em creches, frequentemente alvos de detenções. “Parece uma violação de direitos”, afirmou. Já Mary Grove disse que seu time monitora constantemente o bem-estar de empresas do portfólio, ajuda com aluguel e distribui refeições gratuitas em parceria com restaurantes.

Grandes empresas sob pressão

Apesar de Minneapolis e Saint Paul abrigarem sedes de gigantes como Target, Optum, Best Buy, UnitedHealth Group e General Mills, líderes de startups criticam o que chamam de respostas vagas das corporações. Sessenta executivos estaduais assinaram nota pedindo a redução da violência após a morte da enfermeira de UTI Alex Pretti, mas investidores consideram a medida insuficiente.

Pesquisa da CNBC apontou que um terço dos executivos prefere não se pronunciar; 18 % temem retaliação federal e 9 % ainda avaliam o que fazer. “É decepcionante ver instituições comunitárias falharem em demonstrar coragem”, declarou o investidor Tim Herby.

Perspectivas do ecossistema

Mesmo abalado, o setor de tecnologia local levantou pouco mais de US$ 1 bilhão em investimentos nos últimos anos, impulsionando nomes como a fintech Sezzle, a empresa de água limpa Rorra e a medtech Reema. “A história de inovação é incrível e não vai parar”, disse Robinson, ressaltando que a prioridade, no momento, é garantir segurança e apoio mútuo enquanto a crise persiste.

Para muitos, a rotina mudou drasticamente. Um fundador negro relatou que amigos brancos passaram a dirigi-lo pela cidade para evitar abordagens. Num restaurante, assistiu pela TV ao anúncio de mais um tiroteio envolvendo agentes federais, silenciando o ambiente. “Ontem vi um amigo pela primeira vez desde o Ano-Novo”, contou, ilustrando o isolamento provocado pelas operações.

Os próximos passos da comunidade incluem um evento organizado pela ONG de tecnologia Minnestar para discutir formas de resistência e auxílio. Até lá, parte dos profissionais de tecnologia continua dividida entre manter startups vivas e proteger vizinhos em um momento descrito como “tenso e difícil”.

Com informações de TechCrunch

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