Menos excessos, mais precisão: como a ciência está mudando o cuidado com a saúde da mulher 

Menos excessos, mais precisão: como a ciência está mudando o cuidado com a saúde da mulher 

A prevenção da saúde da mulher passa por uma importante transformação no Brasil. A consolidação de novas tecnologias, como o teste molecular para HPV em substituição ao Papanicolau tradicional, e a personalização de exames de mama e ultrassonografia reforçam que cada fase da vida exige cuidados específicos. Médicos ginecologistas e mastologistas reforçam que é preciso entender essas mudanças para evitar ansiedade e procedimentos desnecessários. 

Segundo Carlos Campagnaro, ginecologista do Hospital São José e professor do Unesc, um ponto importante a ser considerado é que “consulta ginecológica anual” não é sinônimo de “exames ginecológicos anuais”. Quando falamos em prevenção, é importante esclarecer que não existe uma lista única de exames que toda mulher precisa fazer todos os anos. O acompanhamento deve considerar idade, sintomas, vida sexual, histórico familiar e fatores de risco. “A consulta ginecológica periódica continua sendo fundamental. Nela, avaliamos saúde sexual e reprodutiva, contracepção, ciclo menstrual, sintomas ginecológicos, menopausa e fatores de risco para diferentes doenças”, diz o médico.

Entre os exames de rastreamento mais importantes estão aqueles destinados à prevenção do câncer do colo do útero e do câncer de mama. Outros exames devem ser solicitados de forma individualizada. “Fazer mais exames não significa necessariamente fazer uma prevenção melhor”, alerta.

A prevenção acompanha as diferentes fases da vida da mulher. Aos 20 anos, geralmente a preocupação maior está relacionada à saúde sexual e reprodutiva: prevenção de infecções sexualmente transmissíveis; contracepção; vacinação contra o HPV e avaliação de alterações menstruais. Exames para ISTs podem ser indicados conforme a vida sexual e os fatores de risco.

A partir dos 25 anos, ganha importância o rastreamento do câncer do colo do útero. “No Brasil, a grande mudança recente foi a introdução do teste molecular para HPV como exame principal de rastreamento, que está sendo implantado progressivamente no SUS”, conta o professor do Unesc.

Aos 30 anos, de acordo com o ginecologista, além da prevenção do câncer do colo, é preciso prestar mais atenção a fatores de risco metabólicos e cardiovasculares, planejamento reprodutivo e histórico familiar de câncer de mama, ovário e outros tumores.

Já a partir dos 40 anos, a avaliação das mamas ganha ainda mais importância. “A idade para início da mamografia de rotina apresenta algumas diferenças entre recomendações de sociedades médicas e programas públicos. Atualmente, o Ministério da Saúde considera como faixa prioritária para rastreamento populacional a idade de 50 a 74 anos, com mamografia a cada dois anos. Mulheres entre 40 e 49 anos podem ter indicação individualizada, após discussão dos benefícios e possíveis riscos do rastreamento.” 

Depois dos 50 anos, além da prevenção dos cânceres de mama e colo uterino, entram com maior destaque os cuidados relacionados à menopausa, saúde óssea e risco cardiovascular. Também é importante lembrar o rastreamento do câncer colorretal, embora ele não seja propriamente um exame ginecológico. Portanto, mais importante do que pensar sobre qual exame é preciso fazer aos 40 ou aos 50, o ideal é perguntar quais exames são adequados para cada idade e para o risco individual de cada paciente.

PREVENÇÃO – Durante décadas, o Papanicolau foi o principal exame para prevenção do câncer do colo do útero. Ele procura alterações nas células do colo que podem representar lesões precursoras do câncer. “Hoje, temos uma tecnologia mais sensível: o teste molecular para HPV de alto risco, que procura diretamente o material genético dos tipos de HPV relacionados ao câncer”, explica Carlos Campagnaro, ginecologista do Hospital São José e professor do Unesc, em Colatina.

“Desde 2025, as novas diretrizes brasileiras estabeleceram o teste de DNA-HPV oncogênico como exame primário de rastreamento, para mulheres ou pessoas com colo uterino entre 25 e 64 anos que já tiveram atividade sexual. Quando o teste é negativo, em condições habituais, o intervalo para o próximo rastreamento pode ser de cinco anos.”

Isso não significa que o Papanicolau tenha perdido sua utilidade. “Ele continua sendo um excelente exame e permanece sendo utilizado nos locais onde o teste de HPV ainda não está disponível, além de ter papel importante em determinadas situações após um resultado positivo para HPV. A implantação da nova estratégia está ocorrendo progressivamente no país”, diz. 

O médico acrescenta: “Uma mensagem importante para a população é que ter HPV não significa ter câncer. A infecção pelo HPV é extremamente comum e, na maioria das vezes, desaparece espontaneamente. O que nos preocupa é principalmente a persistência de determinados tipos de HPV de alto risco.”

ULTRASSOM TRANSVAGINAL – O ultrassom transvaginal é um excelente exame, mas não precisa fazer parte obrigatoriamente do check-up anual de toda mulher saudável e sem sintomas. Ele é muito útil quando existe uma indicação: sangramento uterino anormal; dor pélvica; suspeita de miomas; cistos ovarianos; endometriose; alterações menstruais ou algum achado no exame ginecológico, por exemplo.

“Um ponto particularmente importante é que fazer ultrassom transvaginal todos os anos em mulheres assintomáticas não se mostrou uma estratégia eficaz para rastrear câncer de ovário na população de risco habitual. O mesmo vale para solicitar rotineiramente o marcador CA-125 com essa finalidade. Além de não demonstrar redução da mortalidade, essa prática pode encontrar pequenas alterações benignas que acabam desencadeando novos exames, ansiedade e até procedimentos desnecessários”, esclarece Carlos Campagnaro. 

Em relação à ultrassonografia das mamas, ele explica que não deve ser encarada como substituta da mamografia ou como exame obrigatório anual para todas as mulheres. A ultrassonografia mamária é extremamente útil para investigar determinados nódulos e outras alterações, especialmente em mulheres mais jovens ou com mamas densas, e como complemento da mamografia em situações selecionadas.

“O problema de utilizá-la indiscriminadamente em mulheres sem sintomas é encontrar alterações que provavelmente nunca causariam problemas, mas que podem levar a novos ultrassons, mamografias, ressonâncias e até biópsias. Portanto, tanto o ultrassom transvaginal quanto o ultrassom das mamas são excelentes ferramentas quando existe uma boa indicação clínica.”

A principal novidade na ginecologia é o teste molecular para HPV de alto risco. “Não se trata simplesmente de acrescentar mais um exame ao check-up. Na realidade, ele representa uma mudança na própria estratégia de prevenção do câncer do colo do útero. Por apresentar maior sensibilidade para detectar mulheres com risco de desenvolver lesões precursoras, o teste permite que, diante de um resultado negativo, o intervalo entre os exames seja maior com segurança. Por isso, o Ministério da Saúde passou a adotá-lo como método primário de rastreamento. É um ótimo exemplo de como a medicina moderna está caminhando: não necessariamente fazer mais exames, mas fazer o exame certo, na pessoa certa e no intervalo correto.”

OS EXCESSOS – Segundo Carlos Campagnaro, existe, sim, o risco do excesso de exames. Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes. “Durante muito tempo criou-se a ideia de que um check-up melhor seria aquele que tivesse o maior número possível de exames. Hoje sabemos que não funciona assim. Todo exame pode encontrar alterações. E algumas dessas alterações jamais provocariam sintomas ou ameaçariam a saúde daquela pessoa.”

Um pequeno cisto no ovário, uma alteração benigna na mama ou uma discreta alteração laboratorial podem iniciar uma sequência de novos exames, consultas, biópsias e procedimentos. “Esse fenômeno pode gerar ansiedade, custos e, eventualmente, tratamentos que não seriam necessários. A própria Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) tem chamado atenção para os riscos do excesso de exames e intervenções em mulheres assintomáticas. Isso não significa deixar de fazer prevenção. Significa fazer prevenção de maneira inteligente e baseada em evidências”, destaca o médico.

A mulher pode, e deve, manter acompanhamento médico periódico. Mas consulta anual não significa necessariamente ultrassom transvaginal anual, ultrassom de mama anual, Papanicolau anual ou uma grande bateria de exames todos os anos. “O melhor check-up é individualizado: considera a idade, os sintomas, os antecedentes pessoais e familiares e os fatores de risco de cada mulher. Em prevenção, fazer o exame certo, na idade certa e no intervalo adequado costuma ser muito mais importante do que simplesmente fazer muitos exames”, reforça o professor do Unesc.

A cirurgiã geral e mastologista do Hospital Santa Rita, Jeane Pissara Monteiro, também explica sobre os cuidados com a saúde da mulher. Confira na entrevista a seguir:

1- Quais exames devem fazer parte do acompanhamento preventivo das mamas e a partir de que idade eles são indicados?

O acompanhamento preventivo começará pelo exame clínico: consulta com entrevista médica, com coleta de informações sobre o histórico da paciente, gestações, cirurgias, problemas prévios, uso de medicações, antecedentes familiares, inspeção e palpação das mamas para detecção de possíveis anormalidades. Em seguida, são solicitados exames complementares, sendo o principal a mamografia anual de rastreamento recomendada a partir dos 40 anos. Mas pode ser necessário investigar em idades mais precoces conforme o risco individual, sintomas ou achados ao exame clínico. A avaliação médica é personalizada para cada paciente e mais exames podem ser solicitados conforme as características individuais.

2- Quando a mamografia é suficiente e em quais situações é necessário complementar a avaliação com ultrassom ou ressonância das mamas?

Nas mulheres com mamas de baixa densidade glandular a rotina para rastreio é a mamografia, pois é um exame de alta sensibilidade e não invasivo. Quando as mamas são densas ou a mamografia encontra assimetrias ou nódulos que exijam esclarecimento ou quando há sintomas que precisam ser investigados, a ultrassonografia deve ser realizada. Em alguns casos pode ainda ser necessária uma ressonância nuclear magnética, quando a ultrassonografia não tira a dúvida. A ressonância também é indicada em pacientes jovens com risco alto para câncer de mama e nas portadoras de implantes de silicone.

3- Mulheres com histórico familiar de câncer de mama ou outras características de maior risco devem começar a fazer o rastreamento a partir de qual idade?

Mulheres com alto risco precisam de rastreio individualizado. Quem tem história familiar de alto risco deve iniciar o rastreamento dez anos antes da idade em que o familiar foi diagnosticado. Quando há mutações genéticas confirmadas na família, é aconselhável fazer o teste genético. A ressonância nuclear magnética tem um papel mais importante no rastreio em pacientes com mutações. Como a incidência do câncer de mama em pacientes jovens vem aumentando, a idade do início da prevenção precisa ser avaliada sempre pelo médico, que também vai orientar quanto a outras medidas preventivas, incluindo o estilo de vida. O importante é jamais deixar de fazer o diagnóstico precoce, que é a melhor forma de prevenir a mortalidade por câncer de mama.

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