Indústria chinesa de robôs humanoides avança em ritmo superior ao dos EUA e consolida liderança inicial

Robôs humanoides de empresas chinesas exibiram acrobacias no tradicional Gala da Festa da Primavera e, nos próximos dias, a fabricante de smartphones Honor promete apresentar seu primeiro modelo do gênero no Mobile World Congress, em Barcelona. Os episódios reforçam o momento vivido pelo setor na China, que reúne velocidade de produção, cadeia de suprimentos robusta e forte apoio estatal.

Prioridade nacional

A robótica figura como área estratégica desde o plano Made in China 2025, pensado originalmente para automação fabril. O avanço recente da inteligência artificial multimodal impulsionou a chamada “IA incorporada”, na qual máquinas atuam em ambientes reais, vista por Pequim como resposta à escassez de mão de obra e caminho para elevar a produtividade.

Mais rápido e em maior volume

“Empresas chinesas estão à frente das norte-americanas em velocidade e quantidade”, afirmou Selina Xu, responsável por China e políticas de IA no escritório do ex-CEO do Google, Eric Schmidt, em entrevista ao TechCrunch. Ela atribui o desempenho à experiência da indústria local de veículos elétricos, que fortaleceu a oferta de sensores, baterias e manufatura.

Como resultado, robôs chineses chegam ao mercado por preços menores e com ciclos de atualização mais curtos. A Unitree, por exemplo, entregou no ano passado cerca de 36 vezes mais unidades que as rivais norte-americanas Figure e Tesla, segundo Xu.

Números ainda modestos, mas promissores

Relatório da Forbes aponta que, em 2025, foram embarcados globalmente apenas 13.317 robôs humanoides. A projeção, contudo, indica quase dobrar o volume ano a ano até atingir 2,6 milhões de unidades em 2035. O levantamento ressalta que parte dos envios refere-se a demonstrações ou projetos-piloto, evidenciando a fase inicial da indústria.

Os maiores embarques de 2025 ficaram com as chinesas Agibot e Unitree, seguidas por UBTech, Leju Robotics, Engine AI e Fourier Intelligence, consolidando a dominância de Pequim.

Do espetáculo à operação

Segundo Yuli Zhao, diretor-estratégico da Galbot, a principal mudança recente é a migração do entusiasmo por demos para aplicações em ambiente real. O robô G1 da empresa participou do Gala da Primavera ao lado de máquinas da Unitree Robotics, Noetix e MagicLab.

“Clientes querem saber se o robô opera de forma estável e realmente reduz trabalho humano”, disse Zhao. Ele ressalta que políticas públicas de automação e um ecossistema fabril ágil facilitam a rápida iteração de produtos no país.

Capital farto

No ano passado, a Unitree foi avaliada em cerca de US$ 3 bilhões após rodada Série C e mira valuation de US$ 7 bilhões em futura abertura de capital. A Galbot captou mais de US$ 300 milhões, elevando sua avaliação também a US$ 3 bilhões, uma das maiores do segmento na China.

Concorrência internacional avança

Nos Estados Unidos, empresas buscam sair das exibições e focar em implantações comerciais. A startup Foundation planeja produzir 50 mil robôs humanoides até o fim de 2027. Relatório da TrendForce indica que, enquanto isso, a China já mira modelos populares de baixo custo e aplicações sofisticadas em setores industrial, de consumo e reabilitação.

Software ainda é desafio

A liderança em hardware não garante supremacia em sistemas de IA. A Nvidia domina atualmente a pilha de software para humanoides, e a maior parte das startups chinesas utiliza chips Orin. Fabricantes locais desenvolvem alternativas, mas ainda enfrentam a escassez de dados do mundo real para treinar modelos que prevejam com precisão o próximo estado físico do robô.

Com o hardware à frente do software, a autonomia plena segue distante. Problemas de confiabilidade ficaram evidentes em “maratonas” de robôs nas quais algumas unidades quebraram. A segurança também preocupa reguladores, que discutem normas para evitar acidentes que possam gerar rejeição pública.

Primeiras aplicações

Para Zhao, a demanda inicial tende a se concentrar em fábricas, centros de distribuição e varejo, onde tarefas repetitivas, jornadas longas e processos bem definidos criam condições favoráveis ao uso de humanoides em escala.

Japão e outros players

O mercado não se resume aos dois gigantes. O ecossistema japonês — que inclui de startups a fabricantes de semicondutores — planeja produção em massa de humanoides até 2027, apoiado em histórico que passa pelo Asimo, Murata Boy e Pepper, da SoftBank Robotics. Fatores como escassez de mão de obra, cultura favorável a robôs e domínio da cadeia de suprimentos sustentam a aposta de investidores como James Riney, da Coral Capital.

Já a Boston Dynamics, controlada pela sul-coreana Hyundai, pretende lançar um novo Atlas para uso fabril em 2028, com meta de até 30 mil unidades por ano nos Estados Unidos.

Vantagem de escala

“A liderança chinesa se traduz em velocidade para ganhar escala”, concluiu Zhao. “O ecossistema comprime pesquisa, cadeia de suprimentos, fabricação, integração e implantação em um ciclo muito curto, permitindo passar do protótipo ao uso comercial mais rapidamente do que em qualquer outro lugar.”

Com informações de TechCrunch

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