O investidor Bill Gurley, conhecido por participações iniciais em empresas como Uber, Zillow e Stitch Fix durante quase 30 anos na Benchmark, lançou um pacote de iniciativas que inclui um livro, uma fundação de bolsas e um instituto de políticas públicas. Aos 58 anos, já instalado em Austin (Texas) e afastado do dia a dia dos aportes, Gurley defende que assumir riscos se tornou imprescindível para quem deseja manter relevância profissional em um mercado dominado pela inteligência artificial.
Livro inspirado em Tom Petty
Intitulado “Runnin Down a Dream”, o livro faz referência à canção de Tom Petty e sustenta que perseguir a verdadeira paixão não é conselho romântico, mas estratégia competitiva. Gurley diz ter chegado a essa conclusão após ler diversas biografias e identificar padrões semelhantes aos que buscava em mercados emergentes. O volume será detalhado em entrevista que vai ao ar na próxima terça-feira no podcast StrictlyVC Download, da TechCrunch.
100 bolsas de US$ 5 mil por ano
Para colocar a teoria em prática, ele criou a Running Down a Dream Foundation, que distribuirá 100 bolsas anuais de US$ 5.000 a candidatos que provarem precisar de um “colchão financeiro” para dar um passo profissional considerado arriscado. “Queremos apoiar quem já refletiu muito sobre o próximo movimento, mas esbarra na falta de recursos”, explicou.
Pesquisa com Wharton: 60% se arrependem
Gurley cita um levantamento feito em parceria com a Wharton School segundo o qual 60% das pessoas mudariam de rumo se pudessem reiniciar a carreira — porcentual que chegou a 70% em uma enquete preliminar no SurveyMonkey. Para ele, o dado reforça a ideia de que “a vida é ‘use ou perca’” e de que os arrependimentos mais pesados costumam ser aqueles ligados ao que não foi tentado.
IA, regulação e “captura regulatória”
Crítico do que chama de “captura regulatória”, o ex-investidor alerta que grandes companhias de IA pressionam por leis que, na prática, blindam sua posição. Gurley teme que regulamentações estaduais múltiplas prejudiquem a competitividade dos modelos americanos diante de rivais chineses, livres de amarras semelhantes.
Trabalho 996 e cultura de esforço
Questionado sobre a chamada cultura 996 — expediente das 9h às 21h, seis dias por semana, popular entre startups chinesas — Gurley diz “apreciar” o ritmo intenso. Segundo ele, o Vale do Silício relaxou durante a pandemia, enquanto fundadores asiáticos mantiveram disciplina comparável à de atletas ou artistas que dedicam 12 horas diárias ao aperfeiçoamento.

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Mentoria prática
Sobre mentoria, Gurley recomenda criar “mentores aspiracionais” a partir de livros, podcasts e entrevistas de figuras inalcançáveis, e buscar conselheiros “dois níveis abaixo” das grandes referências para aumentar as chances de retorno. Ele relembra ter escrito um PDF chamado “So You Want to Be a VC” e notar que poucos candidatos cumpriram as tarefas sugeridas, o que, segundo ele, “afunila naturalmente os realmente interessados”.
Impacto da IA na carreira
Para quem segue trajetórias convencionais, como processos seletivos universitários padronizados, a IA representa ameaça, avalia Gurley. Já quem constrói um percurso singular — o “candidato de um só” — pode transformar as novas ferramentas em vantagem, aproveitando a facilidade inédita de aprendizado oferecida pela tecnologia.
As iniciativas de Gurley somam-se a um instituto de políticas públicas ainda em fase inicial, focado em temas nos quais ele acredita ter condições de “fazer diferença concreta”.
Com informações de TechCrunch







